domingo, 15 de dezembro de 2013

Os dois deuses do Brasil - Julián Arias - El País

obtido de: http://brasil.elpais.com/brasil/2013/12/13/opinion/1386928593_102492.html

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Os dois deuses do Brasil

A maioria dos brasileiros acredita no poder benéfico da religião e do Estado nas suas vidas

13 DEZ 2013 - 07:56 BRST

Talvez seja um caso único no mundo: quase 90% dos brasileiros (87%) estão convencidos de que “a fé em Deus torna as pessoas melhores”. Junto com esse dado surpreendente para países secularizados aparece outro não menos importante: 67% creem que o crescimento da economia deve ser impulsionado pelo Estado, não pela iniciativa privada, uma cifra que aumenta entre a população pobre.
É possível que ambos os dados possam estar relacionados, embora a confiança que a grande maioria dos brasileiros deposita em ambas as divindades – Deus e o Estado – tenha origens diferentes. A fé em Deus livraria as pessoas dessa maldade que impregna a sociedade, com suas violências e corrupções, tornando-as melhores, com menos tentações de maldade; 85% se declaram contrários ao uso de qualquer tipo de drogas.
A fé no Estado, por sua vez, os livraria das dificuldades econômicas. O Estado, como uma divindade boa, cuidaria das necessidades das pessoas melhor do que a economia privada, o esforço pessoal ou a criatividade. Seria o verdadeiro talismã para serem menos pobres.
Os dados, que aparecem em uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Datafolha, são importantes porque não se trata de uma possível anomalia de algum pequeno país periférico do mundo, como ocorre com o Butão e o PIB da felicidade, o “índice de felicidade bruta” (IFB). São dados de um grande país emergente, que começa a contar seriamente na geopolítica mundial, com 200 milhões de habitantes, coração do continente latino-americano.
Sempre se soube que o Brasil, como todo o continente latino-americano, tem um povo profundamente religioso, com uma religiosidade eclética e ecumênica, na qual convivem em paz diferentes crenças, daquelas de origem africana ou indígena até a católica e a evangélica.
Quando cheguei ao Brasil, há 15 anos, o escritor brasileiro Paulo Coelho me advertiu “Vai ser difícil para você aqui, inclusive entre intelectuais e artistas, encontrar agnósticos e ateus convictos”, e acrescentou: “Nós, brasileiros, sempre precisamos acreditar em algo”.
Talvez essa necessidade de acreditar em algo seja também, de algum modo, universal, embora nem sempre declarada. Países altamente secularizados, como por exemplo a Espanha, continuam sendo oficial e majoritariamente católicos ou cristãos. A diferença em relação aos brasileiros é que é difícil hoje encontrar um povo no qual 90% creiam que a mera fé em Deus torna as pessoas melhores. Até os crentes convictos de outros lugares do planeta reconhecem que nem sempre a fé em Deus e a boa conduta dos crentes caminham em paralelo. A história está repleta de criminosos, corruptos, racistas e exploradores que se professam religiosos e até frequentam igrejas. A história das guerras de religião e das diferentes inquisições revela como tantas vezes existe um divórcio entre a fé e a vida; entre o que se professa religiosamente e como se age na vida real. No Brasil, para 87% basta crer em Deus para que as pessoas sejam melhores.
O fato de uma ampla maioria dos cidadãos revelar também uma maior fé no papel benéfico do Estado do que na força da iniciativa privada poderia explicar o fato de que, na hora de votar ou de julgar os políticos, que aparecem sempre coletivamente na lanterna do apreço popular, salve-se sempre a figura do presidente da República, a quem se perdoa muito mais do que aos demais políticos.
Talvez porque o presidente seja visto pela maioria como uma espécie de divindade, de pai poderoso e bom, que acaba cuidando melhor do que ninguém dos seus súditos, mesmo que cometa erros.
Se a fé em Deus torna as pessoas melhores, a fé no Estado e no seu maior representante também deixaria os cidadãos mais protegidos das tentações do livre mercado e da iniciativa privada, um tema de candente atualidade hoje em dia, que divide as diferentes escolas do pensamento a respeito do papel do Estado no crescimento econômico.
Melhor que o Estado cuide de nós? Estamos mais seguros protegidos pelo pai religioso Estado do que pelo deus ateu ou pagão que reina no mundo das finanças, dos bancos, dos que tecem na escuridão as grandes crises mundiais?
Hoje, os brasileiros parecem ter certeza disso. E amanhã? Porque este país está em plena evolução, seus jovens estão mais conectados com o mundo externo da secularização e desejam abrir eles mesmos os caminhos, com suas próprias forças.
Carlos Alberto Di Franco, diretor do Departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais, escreve na sua coluna de segunda-feira em O Globo que, na universidade e nos ambientes de trabalho, “ao contrário das utopias do passado, os jovens acreditam na excelência e no mérito como forma de fazer a verdadeira revolução. Defendem o pluralismo e o debate de ideias”.
Os 60 milhões de jovens brasileiros sem dúvida forjarão o Brasil do futuro, que poderá ser muito diferente do que o refletido na pesquisa atual, onde ainda permanecem as marcas de um passado que vai se transformando à velocidade da luz.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O mapa da América Latina sem o Brasil - El País

O mapa da América Latina sem o Brasil

Se o país fosse eliminado do continente, este se transformaria em uma figura irreconhecível

3 DEZ 2013 - 22:10 BRST

 Obtido de :  http://brasil.elpais.com/brasil/2013/12/04/opinion/1386115848_307725.html 

José Saramago, o falecido Nobel de Literatura português, me fez reparar certo dia que na Espanha, quando mostram a previsão do tempo na televisão, nunca eliminam Portugal. E me comentou: “É que vós, os espanhóis, se arrancais Portugal do mapa, sentis complexo de castração”.
E é verdade: a pele de touro ibérica, sem Portugal, aparece como uma imagem mutilada, esquisita, na acepção negativa do vocábulo português [ao contrário do espanhol “exquisito”, que significa excelente].
Discute-se cada vez mais se o Brasil pertence integralmente à América Latina. Os brasileiros, em geral, não se sentem de todo latino-americanos, e sim simplesmente “brasileiros”, por múltiplas razões históricas, entre as quais a língua que os separa dos outros povos do continente.
No entanto, o Brasil, visto no mapa, aparece como a barriga do continente. Recordando a história contada por Saramago, experimentei imaginar a figura da América Latina sem o Brasil. Façam um teste com lápis e papel. Tudo fica desfigurado. Esse corpo robusto, compacto, maciço e cheio que forma o continente se transforma imediatamente em uma imagem irreconhecível, como uma serpente em pé ou um corpo privado do tronco e da barriga.
Pode-se discutir até o infinito sobre se existe a brasilidade, sobre se há duas Américas – a hispânica e a portuguesa. É inegável que dentro de um mesmo continente cada canto mantém sua idiossincrasia, suas características antropológicas e históricas.
A União Europeia é, por exemplo, na época moderna, a mais forte experiência de um continente unido, no qual até as fronteiras foram apagadas, com uma moeda única, um Governo e um Parlamento próprios e até um Banco Central.
E ninguém poderá dizer que a diversidade, não só de línguas, mas de identidades culturais e história, é menos disparatada do que a que existe entre Brasil e México, por exemplo. O que têm em comum a Suécia com a Grécia, ou Portugal com o Reino Unido ou a Holanda?
E no entanto a Europa, que já foi o centro do mundo, da arte e da cultura, é vista sempre como uma identidade em si. Viaja-se à Europa, seja para a Polônia ou a Bélgica.
O sonho de muitos latino-americanos sempre foi o de chegar a ser de alguma forma, com suas profundas diversidades individuais, a Europa do Novo Mundo, ou seja, uma unidade diferente nas suas partes, mas formando uma só realidade.
O fruto maior desses últimos sete anos na Europa foi o de se tornar um continente que, pela primeira vez em muitos séculos, se viu livre das guerras que foram, no passado, seu amargo pão de cada dia.
Hoje, no entanto, voltam a pulsar na Europa as tentações da volta ao seu antigo desgarre. Nascem os movimentos contra a União Europeia por parte dos que um dia, como os seguidores de Moisés no deserto, sentem saudades das panelas ferventes com carne e cebola do tempo da escravidão.
E a Europa pode se rasgar de novo com o fantasma de fundo do retorno das guerras. Ela foi um farol da civilização, mas também um campo de guerras sem fim. Agora unidos pela paz, seus povos voltam a se agitar em uma tentação diabólica de voltar ao seu dramático passado.
O perigo é que a Europa, de novo com sua túnica dividida, acabe sendo só um museu de riquezas artísticas, um “já era”, um império em declínio, como foram tantos na história antiga, uma relíquia do passado. Algo morto.
A Europa se vê açoitada pela tentação pessimista que alquebra aqueles que sentem ter perdido a ilusão e até a liderança de uma das maiores civilizações que já existiram.
A Europa está de volta da sua civilização. Por isso, cansada. A América Latina, pelo contrário, está começando um novo caminho, talvez com as ilusões que um dia embalaram a Europa. Essa experiência de um mundo novo em ascensão, em vez de estar num caminho de volta, está sendo estudada justamente por antropólogos e sociólogos europeus, que veem na nova experiência latino-americana o germe daquelas ilusões que um dia forjaram a Europa que hoje marcha para trás.
É a ilusão – apesar dos imensos problemas, das chagas ainda abertas e da carga de corrupção política – contra a desilusão que domina tantos europeus.
Os povos novos da AL, da qual não podemos arrancar o Brasil sem sentir complexo de castração, se diferenciam hoje da Europa quanto à visão do futuro. A consciência dos seus cidadãos, começando pelos brasileiros, de que o futuro será melhor que o presente é algo que diferencia fundamentalmente ambos os continentes.
Recordo uma entrevista em Madri, já há alguns anos, com o sociólogo italiano Domenico de Masi, hoje um grande analista da idiossincrasia brasileira, autor do famoso livro O Ócio Criativo.
Masi me surpreendeu naquela conversa ao colocar-me o Brasil como um laboratório de análise das suas tendências de uma civilização nova que poderia estar surgindo, já que sua gente, me dizia, “trabalha para viver, e não vive só para trabalhar”. Um país com rara tolerância religiosa, uma enorme capacidade de aceitação do diferente, algo que é hoje o grande espinho castrador da Europa: o medo e a rejeição aos “outros”, considerados como os novos inimigos.
Naquela mesma época, o filósofo espanhol Fernando Savater me apresentou, curiosamente, o mesmo exemplo do Brasil como germe do que poderia ser um mundo novo, “sem as guerras que assolaram a Europa” durante séculos. Ele me dizia que essa capacidade dos brasileiros de serem tão diferentes, mas sentindo-se todos orgulhosos do seu país, e essa capacidade de receberem e se misturarem com todos os povos e raças (em São Paulo convivem em paz pessoas de mais de cem países, que contribuem livremente com suas características próprias) seriam o melhor antídoto contra as tentações das guerras.
Na Europa crescem perigosamente, por exemplo, os movimentos e partidos radicais, e voltam a erguer a cabeça dos velhos fantasmas de fascismos e nazismos, que já haviam sido domados. Receia-se pela democracia e pelas liberdades tão duramente conquistadas para que sejam entregues à tirania dos novos ídolos do capitalismo e do mercado.
Na AL, por outro lado, vão se dissipando as nuvens das velhas ditaduras, existem anseios cada vez mais fortes de abrir espaços a novas formas de democracia e participação cidadã, a novos organismos que possam ser, mesmo que ainda confusamente, o embrião de um futuro continente sem fronteiras e com uma só moeda. E talvez até com duas línguas irmãs dialogando amistosamente entre si.
E a história nos ensina que são justamente as guerras religiosas e de pensamento, a tentação de querer marcar o que nos separa mais do que o que nos une, o que fez a Europa sofrer com suas fogueiras da Inquisição.
Aqui, nesta nova Europa das Américas, está amanhecendo algo novo que leva, pelo contrário, o selo da esperança e do gosto pela vida e seu desfrute, num entorno natural ainda com o sabor da natureza intocada.
Quem vem analisando o fenômeno desses povos novos diz que, apesar de eles ainda carregarem nas costas as cicatrizes de velhas escravidões e de dolorosas experiências autoritárias colonizadoras, eles estão apostando em um novo Renascimento, talvez diferente daquele que a velha Europa forjou, mas também – e tantos apostam nisso – mais apegado aos valores humanos de convivência, solidariedade, acolhida do outro e vontade de viver melhor, mais perto da natureza do que das máquinas.
E, nesse novo Renascimento do Novo Mundo ou da nova Europa americana, o Brasil não pode ser arrancado do mapa do continente, que ficaria muito feio sem ele, nem tampouco da nova experiência que está germinando e que explicaria esse fascínio atual dos europeus até pela vida pobre das favelas brasileiras, ricas em humanidade e criatividade, e que apontam, com todas as suas contradições, para valores de uma nova civilização em gestação.
Tudo isso é mais profundo na sua realidade verdadeira do que pode parecer na superfície de banalidade da simples política cotidiana.
Dos europeus que visitam a AL e em particular o Brasil, 98% confessam que gostariam de voltar. Sobretudo pelo calor e alegria do seu povo. É pouco isso num mundo cada vez mais órfão de acolhida ao diferente?

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Bolsa Família e a revolução silenciosa no Brasil

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Bolsa Família e a revolução silenciosa no Brasil

Por Deborah Wetzel
Por décadas e até mesmo séculos, a desigualdade e a pobreza têm caminhado juntas no Brasil, resultado de modelos de crescimento não inclusivos e políticas sociais regressivas. Na segunda metade do século XX, o país esteve entre os de condições mais desiguais no mundo, razão pela qual economistas criaram expressões como "Belíndia - uma sociedade com a prosperidade do tamanho da pequena Bélgica cercado por um mar de pobreza indiana". Por muitos anos, os 60% mais miseráveis da população detinham apenas 4% da riqueza, enquanto os 20% mais abastados detinham em média 58% dela.
Há dez anos, o presidente Lula iniciou o inovador Programa Bolsa Família, intensificando e administrando de maneira crucial iniciativas dispersas existentes sob um conceito simples, porém poderoso: confiar a famílias pobres transferências de pequenas quantias de dinheiro em troca de manter seus filhos na escola e com acompanhamento médico regular.
O programa foi recepcionado com um ceticismo considerável, afinal o Brasil continuava a ser tradicionalmente um grande investidor no setor social, com 22% do PIB aplicado em educação, saúde, proteção e segurança sociais. Uma das analogias utilizadas por acadêmicos era a de que jogar dinheiro de um helicóptero seria tão eficiente quanto atingir a população mais pobre, devido à frustração brasileira com a falta de resultados. Como o Bolsa Família, com cerca de 0,5% do PIB, mudaria esse cenário sombrio?
A desigualdade de renda foi reduzida para um coeficiente de Gini de 0,527, que corresponde a uma redução de 15%
Dez anos depois, o Bolsa Família seria chave para diminuir mais da metade da pobreza no Brasil- de 9,7 a 4,3% da população. O mais impressionante, em contraste com outros países, é que a desigualdade de renda também foi reduzida de forma acentuada, para um Coeficiente de Gini de 0,527, que corresponde a uma redução de impressionantes 15%. Atualmente, o Bolsa Família beneficia em torno de 14 milhões de famílias -50 milhões de pessoas ou cerca de ¼ da população, e é amplamente visto como uma história de sucesso, um ponto de referência para a política social no mundo.
De igual importância, estudos qualitativos destacaram como a transferência regular de dinheiro do programa tem ajudado a promover a dignidade e autonomia entre os pobres. Isso é particularmente verdadeiro para as mulheres, que são mais de 90% dos beneficiários.
Além do impacto imediato na pobreza, uma outra meta central do programa era quebrar o ciclo de transmissão de pobreza de pais para filhos pelo aumento de oportunidades para as novas gerações com mais educação e saúde. Avaliações a respeito do progresso dessa meta exigem um monitoramento a longo prazo, mas os resultados têm sido bastante promissores até o momento. O programa aumentou a frequência escolar e a progressão entre séries.
Por exemplo, as chances de uma jovem de 15 anos estar na escola aumentaram para 21%. Crianças e famílias estão melhor preparadas para estudar e aproveitar oportunidades com mais visitas de atendimento pré-natal, cobertura de vacinação e redução na mortalidade infantil. A pobreza invariavelmente lança um espectro sobre as próximas gerações, porém esses resultados não deixam dúvidas de que o Bolsa Família melhorou as expectativas para gerações de crianças. Ao mesmo tempo, receios sobre consequências não intencionais, tais como uma possível redução de incentivos no trabalho, não se materializaram. Na verdade, o aumento da renda do trabalho tem sido outro fator crítico na redução da pobreza e desigualdade brasileiras durante o período.
O Cadastro Único é a ferramenta essencial que permitiu que o programa Bolsa Família alcançasse esse marco de sucesso, sendo capaz de direcionar suas intervenções diretamente aos mais pobres. Ele é hoje a base de programas sociais, uma vez que fornece as informações ao sistema que processa milhões de pagamentos mensais para os beneficiados, permite ajustes rápidos e ampliação de benefícios com esforços adicionais tais como o recente programa Brasil Carinhoso. Por meio de uma administração eficiente e direcionamento adequado, o Bolsa Família atingiu um grande objetivo a custos bem baixos (cerca de 0,6% do PIB) e construiu a base para programas ambiciosos como Brasil sem Miséria e o Busca ativa, que incluirá os que ainda não foram alcançados.
A experiência brasileira está mostrando o caminho para o restante do mundo. Apesar do pouco tempo de criação, o programa ajudou a estimular um aumento nos programas de transferência condicionais de renda na América Latina e pelo mundo inteiro - tais programas atualmente existem em mais de 40 países. Somente no ano passado, mais de 120 delegações visitaram o Brasil para aprender sobre o Bolsa Família. O Banco Mundial é parceiro do programa desde o início; estamos aprendendo com ele e ajudando sua disseminação.
Nossas novas metas globais de erradicar a pobreza extrema até 2030 e impulsionar a prosperidade compartilhada foram inspiradas pela experiência brasileira. Outra etapa concreta desta parceria foi o desenvolvimento da "Iniciativa de Aprendizagem no Brasil para Um Mundo Sem Pobreza" (WWP), assinada recentemente em Brasília em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social, Ipea e Centro de Política Internacional da UNDP. A iniciativa apoiará inovações e o aprendizado contínuo com base na experiência de política social brasileira.
A meta final para qualquer programa social é que seu sucesso o torne redundante. O Brasil está bem posicionado para sustentar suas conquistas da última década e está perto de alcançar a incrível façanha de erradicar a pobreza e a fome de todos os brasileiros, razão legítima para celebrar.
Deborah Wetzel é diretora do Banco Mundial para o Brasil e PhD em economia pela Universidade de Oxford, Inglaterra.

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domingo, 18 de agosto de 2013

Nós, os desordeiros - João Ubaldo Ribeiro

Artigo de João Ubaldo Ribeiro – Revista Veja, 07 de agosto de 2013.

“É comum que, quando estamos falando mal do Brasil, nos refiramos na terceira pessoa tanto ao país quanto ao seu povo. Dizemos que o brasileiro tem tais ou quais defeitos graves, como se nós não fôssemos brasileiros iguais a quaisquer outros. Em relação aos políticos, agimos quase como se tratasse de marcianos ou de uma espécie diferente da nossa, não de gente aqui nascida e criada, da mesma maneira que nós. Somos observadores e vítimas de fatos com cuja existência não temos nada a ver. Os corruptos são ‘eles’, os que sujam as cidades são ‘eles’, os funcionários relapsos são ‘eles’ – nunca nós.

Paralelamente, nos comprazemos em cultivar a noção de que o povo brasileiro é basicamente muito bom, de índole generosa, honesto, solidário, hospitaleiro, pacífico, cordial, alegre e assim por diante. Artigos, conferências e discursos que envolvam críticas negativas a alguma característica negativa dos brasileiros contêm as sempre uma ressalva de praxe, a de que o povo não pode ser acusado de nada, o povo é bom. Com isso esquecemos que não há povo geneticamente bom ou ruim e que o comportamento e os valores prevalentes em qualquer sociedade se originam em elementos culturais, entendidos estes em seu sentido mais lato.

Há quem faça uso de estatísticas comparativas para mostrar que, em áreas como a segurança, por exemplo, algumas grandes cidades nossas apresentam índices de criminalidade comparáveis com cidades americanas do mesmo porte. Então não estaríamos tão mal assim. Mas não há como fazer uma comparação adequada. O número de infrações e de ocorrências policiais em cidades americanas é muito maior do que seria aqui, porque lá se recorre à polícia com muito mais frequência, relativamente. Aqui, tem gente que não dá queixa nem de carro furtado. Sem falar que as estatísticas geralmente não mostram assaltos organizados e sanguinários realizados desde São Paulo a cidadezinhas do interior do Nordeste, onde parece que está surgindo um cangaço modernizado, com os invasores intimidando a população, explodindo caixas de bancos, pilhando casas comerciais e invadindo fazendas. E existem ainda as vastas áreas onde não há polícia, ou a presença do estado é rarefeita e esporádica. No caso, as estatísticas, porque viciadas na origem, valem bem pouco.

E não somente a violência e a insegurança são maiores entre nós do que geralmente se reconhece. Não está na moda falar em padrões morais e quem se arrisca a mencioná-los é desdenhosamente chamado de moralista. Mas não tem nada de moralista aquele que lembra que o homem é um ser moral. Sem senso moral, o homem é um bicho ou um psicopata. Claro, a nação não perdeu suas referências morais, mas o clima nessa área parece hoje cínico e complacente e não é raro que o apego a algum valor moral seja qualificado como coisa de otário. Recato e pudor parecem ter sumido e o exibicionismo, em mil formas contemporâneas, se manifesta em toda parte. Atos de civilidade, como devolver dinheiro achado, são manchete nos jornais.

Não há órgão público que não seja alvo de acusações ou suspeitas de corrupção, nepotismo, tráfico de influência e outras práticas imorais ou criminosas. O engenho nacional desenvolveu sistemas eletrônicos avançados e organizou equipes de ‘consultores’ para fraudar concursos e exames. Dia sim, dia não, noticiam-se desvios de verbas astronômicos, obras públicas caindo aos pedaços antes de serem concluídas e toda espécie de falcatrua. Neste instante mesmo, centenas ou milhares de policiais, pelo país afora, estão embolsando o ‘agrado’ que lhes dão os motoristas para evitar uma multa. Também todos os dias, centenas de milhares de pessoas, ou até milhões, pagam meia-entrada com carteiras de estudante falsificadas. O ‘por fora’ é rotineiramente cobrado, em serviços que ou deveriam ser gratuitos ou fáceis de obter. Vivemos imersos num mar de pequenas delinquências cotidianas que já notamos, ou não achamos que fazem parte natural e inevitável da vida.

O desprezo pela lei e pela moral, a não ser nos raros casos em que a sanção chega com prontidão e eficácia, é a regra entre nós. E essa situação é piorada pela existência das conhecidas leis que pegam, ou ainda, de leis meio disparatadas, que ninguém acredita que serão observadas com rigor. Por exemplo, há quem sustente que, se o sujeito for pegado por um fiscal do Ibama, matando um caititu no mato, é melhor matar o fiscal do que reconhecer o assassinato do caititu. Depois de matar o fiscal, o caçador foge do flagrante, apresenta-se depois à polícia, é réu primário com domicílio conhecido, responde o processo em liberdade e pega aí seus dois aninhos, talvez em regime semiaberto. Já a morte do caititu seria crime inafiançável, cana dura imediata e implacável.

As estatísticas brasileiras de mortes e ferimentos em acidentes de trânsito são um escândalo, qualquer que seja o critério usado para avaliá-las. Todo trânsito brasileiro é um escândalo, nas cidades e nas estradas. Quem passa algum tempo fora do Brasil tem que reavivar seus reflexos, para atravessar ruas. Os motoristas brasileiros se comportam como se o fato de um pedestre atravessar com o sinal fechado para ele lhes desse o direito de atropelá-lo. Todos os pedestres passam de vez em quando pela experiência de atravessar a rua bem antes da passagem de um carro e ver o motorista acelerar na sua direção, como se mirasse nele. Nas estradas, as manobras arriscadas, como ultrapassagens em pontos onde há sinalização proibindo-os, são rotineiras, assim como o uso do acostamento como pista e a violação contumaz dos limites de velocidade. E as pesquisas revelam também que a maior parte dos acidentes é resultado de imprudência e má conduta ao volante, desprezo pelas leis e normas técnicas.
 
Decifrar as causas desse comportamento equivale, de certa forma, a decifrar o Brasil, tarefa jamais completada por ninguém. As causas são múltiplas, controvertidas e complicadas, o que torna muito difícil até mesmo identificá-las corretamente. Por essa razão, assim como fazem os médicos, quando não conseguem um diagnóstico preciso ou não conhecem com exatidão a causa de uma doença, o tratamento sintomático é o único caminho. Não sabemos bem porque somos desordeiros, mas sabemos que somos. E estamos condenados a continuar sendo, enquanto não levarmos a sério o desrespeito à lei e mantivermos uma relação afetiva com a malandragem, a esperteza marota e a frouxidão de princípios.”

João Ubaldo Ribeiro (Itaparica, BA, 23 de janeiro de 1941) é um escritor, jornalista, roteirista1 e professor brasileiro, formado em direito e membro da Academia Brasileira de Letras. É ganhador do Prêmio Camões de 2008, maior premiação para autores de língua portuguesa.2 Ubaldo Ribeiro teve algumas obras adaptadas para a televisão e para o cinema, além de ter sido distinguido em outros países, como a Alemanha.3 É autor de romances como Sargento Getúlio, O Sorriso do Lagarto, A Casa dos Budas Ditosos. (wikipedia).