domingo, 15 de dezembro de 2013

Os dois deuses do Brasil - Julián Arias - El País

obtido de: http://brasil.elpais.com/brasil/2013/12/13/opinion/1386928593_102492.html

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Os dois deuses do Brasil

A maioria dos brasileiros acredita no poder benéfico da religião e do Estado nas suas vidas

13 DEZ 2013 - 07:56 BRST

Talvez seja um caso único no mundo: quase 90% dos brasileiros (87%) estão convencidos de que “a fé em Deus torna as pessoas melhores”. Junto com esse dado surpreendente para países secularizados aparece outro não menos importante: 67% creem que o crescimento da economia deve ser impulsionado pelo Estado, não pela iniciativa privada, uma cifra que aumenta entre a população pobre.
É possível que ambos os dados possam estar relacionados, embora a confiança que a grande maioria dos brasileiros deposita em ambas as divindades – Deus e o Estado – tenha origens diferentes. A fé em Deus livraria as pessoas dessa maldade que impregna a sociedade, com suas violências e corrupções, tornando-as melhores, com menos tentações de maldade; 85% se declaram contrários ao uso de qualquer tipo de drogas.
A fé no Estado, por sua vez, os livraria das dificuldades econômicas. O Estado, como uma divindade boa, cuidaria das necessidades das pessoas melhor do que a economia privada, o esforço pessoal ou a criatividade. Seria o verdadeiro talismã para serem menos pobres.
Os dados, que aparecem em uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Datafolha, são importantes porque não se trata de uma possível anomalia de algum pequeno país periférico do mundo, como ocorre com o Butão e o PIB da felicidade, o “índice de felicidade bruta” (IFB). São dados de um grande país emergente, que começa a contar seriamente na geopolítica mundial, com 200 milhões de habitantes, coração do continente latino-americano.
Sempre se soube que o Brasil, como todo o continente latino-americano, tem um povo profundamente religioso, com uma religiosidade eclética e ecumênica, na qual convivem em paz diferentes crenças, daquelas de origem africana ou indígena até a católica e a evangélica.
Quando cheguei ao Brasil, há 15 anos, o escritor brasileiro Paulo Coelho me advertiu “Vai ser difícil para você aqui, inclusive entre intelectuais e artistas, encontrar agnósticos e ateus convictos”, e acrescentou: “Nós, brasileiros, sempre precisamos acreditar em algo”.
Talvez essa necessidade de acreditar em algo seja também, de algum modo, universal, embora nem sempre declarada. Países altamente secularizados, como por exemplo a Espanha, continuam sendo oficial e majoritariamente católicos ou cristãos. A diferença em relação aos brasileiros é que é difícil hoje encontrar um povo no qual 90% creiam que a mera fé em Deus torna as pessoas melhores. Até os crentes convictos de outros lugares do planeta reconhecem que nem sempre a fé em Deus e a boa conduta dos crentes caminham em paralelo. A história está repleta de criminosos, corruptos, racistas e exploradores que se professam religiosos e até frequentam igrejas. A história das guerras de religião e das diferentes inquisições revela como tantas vezes existe um divórcio entre a fé e a vida; entre o que se professa religiosamente e como se age na vida real. No Brasil, para 87% basta crer em Deus para que as pessoas sejam melhores.
O fato de uma ampla maioria dos cidadãos revelar também uma maior fé no papel benéfico do Estado do que na força da iniciativa privada poderia explicar o fato de que, na hora de votar ou de julgar os políticos, que aparecem sempre coletivamente na lanterna do apreço popular, salve-se sempre a figura do presidente da República, a quem se perdoa muito mais do que aos demais políticos.
Talvez porque o presidente seja visto pela maioria como uma espécie de divindade, de pai poderoso e bom, que acaba cuidando melhor do que ninguém dos seus súditos, mesmo que cometa erros.
Se a fé em Deus torna as pessoas melhores, a fé no Estado e no seu maior representante também deixaria os cidadãos mais protegidos das tentações do livre mercado e da iniciativa privada, um tema de candente atualidade hoje em dia, que divide as diferentes escolas do pensamento a respeito do papel do Estado no crescimento econômico.
Melhor que o Estado cuide de nós? Estamos mais seguros protegidos pelo pai religioso Estado do que pelo deus ateu ou pagão que reina no mundo das finanças, dos bancos, dos que tecem na escuridão as grandes crises mundiais?
Hoje, os brasileiros parecem ter certeza disso. E amanhã? Porque este país está em plena evolução, seus jovens estão mais conectados com o mundo externo da secularização e desejam abrir eles mesmos os caminhos, com suas próprias forças.
Carlos Alberto Di Franco, diretor do Departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais, escreve na sua coluna de segunda-feira em O Globo que, na universidade e nos ambientes de trabalho, “ao contrário das utopias do passado, os jovens acreditam na excelência e no mérito como forma de fazer a verdadeira revolução. Defendem o pluralismo e o debate de ideias”.
Os 60 milhões de jovens brasileiros sem dúvida forjarão o Brasil do futuro, que poderá ser muito diferente do que o refletido na pesquisa atual, onde ainda permanecem as marcas de um passado que vai se transformando à velocidade da luz.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O mapa da América Latina sem o Brasil - El País

O mapa da América Latina sem o Brasil

Se o país fosse eliminado do continente, este se transformaria em uma figura irreconhecível

3 DEZ 2013 - 22:10 BRST

 Obtido de :  http://brasil.elpais.com/brasil/2013/12/04/opinion/1386115848_307725.html 

José Saramago, o falecido Nobel de Literatura português, me fez reparar certo dia que na Espanha, quando mostram a previsão do tempo na televisão, nunca eliminam Portugal. E me comentou: “É que vós, os espanhóis, se arrancais Portugal do mapa, sentis complexo de castração”.
E é verdade: a pele de touro ibérica, sem Portugal, aparece como uma imagem mutilada, esquisita, na acepção negativa do vocábulo português [ao contrário do espanhol “exquisito”, que significa excelente].
Discute-se cada vez mais se o Brasil pertence integralmente à América Latina. Os brasileiros, em geral, não se sentem de todo latino-americanos, e sim simplesmente “brasileiros”, por múltiplas razões históricas, entre as quais a língua que os separa dos outros povos do continente.
No entanto, o Brasil, visto no mapa, aparece como a barriga do continente. Recordando a história contada por Saramago, experimentei imaginar a figura da América Latina sem o Brasil. Façam um teste com lápis e papel. Tudo fica desfigurado. Esse corpo robusto, compacto, maciço e cheio que forma o continente se transforma imediatamente em uma imagem irreconhecível, como uma serpente em pé ou um corpo privado do tronco e da barriga.
Pode-se discutir até o infinito sobre se existe a brasilidade, sobre se há duas Américas – a hispânica e a portuguesa. É inegável que dentro de um mesmo continente cada canto mantém sua idiossincrasia, suas características antropológicas e históricas.
A União Europeia é, por exemplo, na época moderna, a mais forte experiência de um continente unido, no qual até as fronteiras foram apagadas, com uma moeda única, um Governo e um Parlamento próprios e até um Banco Central.
E ninguém poderá dizer que a diversidade, não só de línguas, mas de identidades culturais e história, é menos disparatada do que a que existe entre Brasil e México, por exemplo. O que têm em comum a Suécia com a Grécia, ou Portugal com o Reino Unido ou a Holanda?
E no entanto a Europa, que já foi o centro do mundo, da arte e da cultura, é vista sempre como uma identidade em si. Viaja-se à Europa, seja para a Polônia ou a Bélgica.
O sonho de muitos latino-americanos sempre foi o de chegar a ser de alguma forma, com suas profundas diversidades individuais, a Europa do Novo Mundo, ou seja, uma unidade diferente nas suas partes, mas formando uma só realidade.
O fruto maior desses últimos sete anos na Europa foi o de se tornar um continente que, pela primeira vez em muitos séculos, se viu livre das guerras que foram, no passado, seu amargo pão de cada dia.
Hoje, no entanto, voltam a pulsar na Europa as tentações da volta ao seu antigo desgarre. Nascem os movimentos contra a União Europeia por parte dos que um dia, como os seguidores de Moisés no deserto, sentem saudades das panelas ferventes com carne e cebola do tempo da escravidão.
E a Europa pode se rasgar de novo com o fantasma de fundo do retorno das guerras. Ela foi um farol da civilização, mas também um campo de guerras sem fim. Agora unidos pela paz, seus povos voltam a se agitar em uma tentação diabólica de voltar ao seu dramático passado.
O perigo é que a Europa, de novo com sua túnica dividida, acabe sendo só um museu de riquezas artísticas, um “já era”, um império em declínio, como foram tantos na história antiga, uma relíquia do passado. Algo morto.
A Europa se vê açoitada pela tentação pessimista que alquebra aqueles que sentem ter perdido a ilusão e até a liderança de uma das maiores civilizações que já existiram.
A Europa está de volta da sua civilização. Por isso, cansada. A América Latina, pelo contrário, está começando um novo caminho, talvez com as ilusões que um dia embalaram a Europa. Essa experiência de um mundo novo em ascensão, em vez de estar num caminho de volta, está sendo estudada justamente por antropólogos e sociólogos europeus, que veem na nova experiência latino-americana o germe daquelas ilusões que um dia forjaram a Europa que hoje marcha para trás.
É a ilusão – apesar dos imensos problemas, das chagas ainda abertas e da carga de corrupção política – contra a desilusão que domina tantos europeus.
Os povos novos da AL, da qual não podemos arrancar o Brasil sem sentir complexo de castração, se diferenciam hoje da Europa quanto à visão do futuro. A consciência dos seus cidadãos, começando pelos brasileiros, de que o futuro será melhor que o presente é algo que diferencia fundamentalmente ambos os continentes.
Recordo uma entrevista em Madri, já há alguns anos, com o sociólogo italiano Domenico de Masi, hoje um grande analista da idiossincrasia brasileira, autor do famoso livro O Ócio Criativo.
Masi me surpreendeu naquela conversa ao colocar-me o Brasil como um laboratório de análise das suas tendências de uma civilização nova que poderia estar surgindo, já que sua gente, me dizia, “trabalha para viver, e não vive só para trabalhar”. Um país com rara tolerância religiosa, uma enorme capacidade de aceitação do diferente, algo que é hoje o grande espinho castrador da Europa: o medo e a rejeição aos “outros”, considerados como os novos inimigos.
Naquela mesma época, o filósofo espanhol Fernando Savater me apresentou, curiosamente, o mesmo exemplo do Brasil como germe do que poderia ser um mundo novo, “sem as guerras que assolaram a Europa” durante séculos. Ele me dizia que essa capacidade dos brasileiros de serem tão diferentes, mas sentindo-se todos orgulhosos do seu país, e essa capacidade de receberem e se misturarem com todos os povos e raças (em São Paulo convivem em paz pessoas de mais de cem países, que contribuem livremente com suas características próprias) seriam o melhor antídoto contra as tentações das guerras.
Na Europa crescem perigosamente, por exemplo, os movimentos e partidos radicais, e voltam a erguer a cabeça dos velhos fantasmas de fascismos e nazismos, que já haviam sido domados. Receia-se pela democracia e pelas liberdades tão duramente conquistadas para que sejam entregues à tirania dos novos ídolos do capitalismo e do mercado.
Na AL, por outro lado, vão se dissipando as nuvens das velhas ditaduras, existem anseios cada vez mais fortes de abrir espaços a novas formas de democracia e participação cidadã, a novos organismos que possam ser, mesmo que ainda confusamente, o embrião de um futuro continente sem fronteiras e com uma só moeda. E talvez até com duas línguas irmãs dialogando amistosamente entre si.
E a história nos ensina que são justamente as guerras religiosas e de pensamento, a tentação de querer marcar o que nos separa mais do que o que nos une, o que fez a Europa sofrer com suas fogueiras da Inquisição.
Aqui, nesta nova Europa das Américas, está amanhecendo algo novo que leva, pelo contrário, o selo da esperança e do gosto pela vida e seu desfrute, num entorno natural ainda com o sabor da natureza intocada.
Quem vem analisando o fenômeno desses povos novos diz que, apesar de eles ainda carregarem nas costas as cicatrizes de velhas escravidões e de dolorosas experiências autoritárias colonizadoras, eles estão apostando em um novo Renascimento, talvez diferente daquele que a velha Europa forjou, mas também – e tantos apostam nisso – mais apegado aos valores humanos de convivência, solidariedade, acolhida do outro e vontade de viver melhor, mais perto da natureza do que das máquinas.
E, nesse novo Renascimento do Novo Mundo ou da nova Europa americana, o Brasil não pode ser arrancado do mapa do continente, que ficaria muito feio sem ele, nem tampouco da nova experiência que está germinando e que explicaria esse fascínio atual dos europeus até pela vida pobre das favelas brasileiras, ricas em humanidade e criatividade, e que apontam, com todas as suas contradições, para valores de uma nova civilização em gestação.
Tudo isso é mais profundo na sua realidade verdadeira do que pode parecer na superfície de banalidade da simples política cotidiana.
Dos europeus que visitam a AL e em particular o Brasil, 98% confessam que gostariam de voltar. Sobretudo pelo calor e alegria do seu povo. É pouco isso num mundo cada vez mais órfão de acolhida ao diferente?