sexta-feira, 25 de abril de 2014

BBC/Tim Vickery: A dificuldade dos brasileiros em aceitar críticas


O jornalista dinamarquês e a dificuldade dos brasileiros em aceitar críticas


Obtido de: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/04/140425_jornalista_dinamarques_critica_copa_tim_vicekry_rw.shtml


Um dos destaques da TV aberta no Brasil atualmente é um programa chamado O Mundo Segundo os Brasileiros. Toda semana, o programa explora algum lugar do mundo do ponto de vista dos brasileiros que estão vivendo por lá. Ali eles têm a chance de contar suas histórias.
O programa é uma oportunidade para aprender muitas coisas sobre as atrações turísticas do lugar e sobre como é o dia a dia por lá, enquanto também revela muito sobre a perspectiva daqueles brasileiros que estão apresentando o local.
Em menos de dois meses, o processo irá se reverter. Pessoas de 31 nacionalidades diferentes (além de inúmeros outros "neutros") estarão acompanhando suas seleções pelo país como parte de uma experiência gigantesca e fascinante.
O produto final - assim como o troféu levantado no Maracanã no dia 13 de julho, após a final - será um O Brasil segundo o mundo - um programa que não será transmitido de uma vez em termos definitivos, mas que será transmitido nas TVs, nas rádios, nas mídias sociais e nas conversas por um sem-número de bares, cafés, restaurantes, de Sidney a Seul.
O resultado será inevitavelmente diverso, porque as pessoas que estarão fazendo o julgamento são diferentes. Esse, com certeza, é o momento apropriado para acabar com as visões infantis de um mundo "dualizado", dividido entre os "brasileiros daqui" e os "gringos de fora".
Todos os tipos da diversidade humana estarão nas ruas de 12 cidades brasileiras. É o tempo de abraçá-las. Mas abraçá-las significa aceitar uma ampla gama de opiniões diversas, e não apenas o que soar mais confortável aos ouvidos.
Os ataques e abusos recentes contra o jornalista dinamarquês Mikkel Jensen não são um sinal promissor. Ele desistiu de cobrir a Copa do Mundo depois de aprender português, viver um tempo no país e chegar à conclusão de que ele não se sentia mais confortável para fazer parte do evento.
Ele decidiu que a Copa de 2014 não estava cumprindo seu potencial social - talvez ele pensou que o torneio estava até piorando a situação nesse aspecto - e então ele foi embora para casa.
Nós podemos não concordar totalmente com a conclusão que ele tirou e com a atitude que ele tomou - apesar de eu pensar que muitos de nós que têm algum contato com esses megaeventos acabam ficando com um peso na consciência de alguma forma.
Mas o que é indiscutível é que ele tem o direito de ter sua opinião - especialmente, no caso dele, depois do tempo que ele passou observando, aprendendo e ponderando.
Jensen parece ter o melhor interesse da maioria da população brasileira no coração - seu post de despedida no Facebook fala sobre o contato que ele teve com crianças de rua em Fortaleza.
E ainda assim, muitos por aqui tentaram apresentá-lo como um "inimigo do Brasil", outra voz arrogante do rico colonialismo europeu olhando de nariz empinado para o Terceiro Mundo.
Mas há alguns pontos a serem considerados aqui. O primeiro é óbvio: as pessoas não são necessariamente ou mesmo geralmente, meros porta-vozes de sua terra nativa.
Segundo, o grande império dinamarquês não passou para a história como um dos mais tiranos e tem pouca relevância para qualquer debate sobre o Brasil.
E terceiro, milhões de brasileiros são eles próprios descendentes de europeus. Então eles também carregam consigo os pecados do colonialismo do passado? Ou nós estaríamos vendo, na verdade, o exagero de uma perversa "cultura da vítima".
Muitos brasileiros por si só parecem ter chegado à conclusão de que eles prefeririam não sediar a Copa do Mundo, que o evento está fazendo mais mal do que bem. Por que um jornalista dinamarquês não pode ter a mesma opinião?
O caso de Mikkel Jensen é um dos primeiros de muitos. Nos próximos meses, visitantes de muitos outros lugares diferentes formarão suas opiniões a respeito do Brasil - muitos deles sem investirem o mesmo tempo e fazerem o mesmo esforço que Jensen fez.
Algumas dessas opiniões podem não valer nada. Outras merecerão pelo menos uma reflexão. Algumas podem ser bastante ofensivas. Todas fazem parte do processo pelo qual o Brasil escolheu passar: o de ser anfitrião para o mundo inteiro.
Os 20 anos que passei aqui me levaram à concluir que a única relação madura possível com o Brasil é uma de amor e ódio.
Conforme o planeta começa a conhecer o país melhor como conseqüência da Copa, parece-me que alguns dos simples mitos sobre o Brasil, tanto os bons quanto os ruins, podem dar lugar a visões mais elaboradas sobre os pontos positivos e negativos do país.
Seria legal se as muitas versões do Brasil Segundo o Mundo pudessem homenagear a capacidade dos brasileiros a tolerar opiniões de pessoas que têm perspectivas diferentes, mesmo que ouvi-las pode às vezes machucá-los por dentro.

BBC / Tim Vickery: Copa escancara abismo entre o que o Brasil é e o que poderia ser

Tim Vickery: Copa escancara abismo entre o que o Brasil é e o que poderia ser


Atualizado em  11 de abril, 2014 - 20:50 (Brasília) 23:50 GMT 
 


Copa do Mundo contrasta o "Brasil em potencial" com o "Brasil real"
Algumas pessoas veem a obsessão dos brasileiros com a Copa do Mundo como um caso de alienação. Eu confesso que não posso concordar inteiramente com isso.

Não é apenas o valor estético das pinturas nos muros ou das deslumbrantes bandeirinhas verde e amarelas enfeitando as ruas. Muito mais importante do que isso é a questão do que está sendo celebrado.

O clima de festa nas ruas me lembra um pouco uma versão tropical de um Jubilee, uma festa que acontece no meu país de origem para comemorar 25 anos de monarquia ou algum marco político importante lá. Mas a Copa do Mundo não é para celebrar alguma festividade política (apesar de os governos acabarem se aproveitando dela) e nem é uma homenagem para algum aristocrata da família real. Na Copa do Mundo, os brasileiros estão celebrando eles mesmos.
O momento do hino nacional antes dos jogos, quando a câmera passeia pelos jogadores, é sempre um momento mágico. Como uma janela para a alma da nação, o que se vê são legítimos representantes (masculinos) do país. Os rostos são, em sua maioria, de pessoas com origens humildes, com alguns representantes da classe média também. O futebol é uma atividade que não impõe barreiras para quem quiser entrar e isso cria uma verdadeira meritocracia – não importa qual escola essas pessoas frequentaram.
Neymar levanta taça da Copa das Confederações / Crédito da foto: Getty
Para Tim Vickery, seleção brasileira é um "registro vivo do potencial da sociedade" no Brasil
A Copa do Mundo, então, é uma espécie de "Nações Unidas" para o homem comum. Ser o melhor do mundo nessa atividade – o único país a conquistar a taça cinco vezes – é algo que vale a comemoração. A Copa do Mundo é o momento em que o Brasil aparece para todo o planeta por razões positivas: como o país a ser invejado, o país que tem o melhor estilo. E isso coloca uma questão: como o Brasil seria se o mesmo conceito de meritocracia aplicado no futebol fosse aplicado também em outras áreas da sociedade? Nas famosas palavras do cientista social americano Janet Lever, a seleção brasileira serve como um "registro vivo do potencial da sociedade".
Mas, claro, há um enorme abismo entre potencial e realidade. E é exatamente por essa razão que a Copa do Mundo de 2014 está se provando tão "explosiva". Na tensão permanente entre potencial e realidade, o caso típico da Copa do Mundo no Brasil destacaria o primeiro. Mas sediar a versão 2014 está deixando todos os holofotes voltados para a abundância deste último. Se normalmente a competição apresenta razões para o Brasil ser invejado, desta vez - como o mundo inteiro está assistindo atentamente e nervosamente - está fornecendo os motivos para o país ser criticado, temido ou até mesmo ridicularizado. A experiência é algo semelhante a um pontapé no traseiro prolongado da frequentemente frágil auto-estima nacional.
A falta de planejamento, a falta de segurança no trabalho, o fato de deixar as coisas para a última hora, a dificuldade de executar as tarefas de forma coletiva, as promessas não cumpridas, as decisões pouco eficientes, a burocracia excessiva, a infraestrutura precária, o oportunismo de curto prazo, as coisas custando muito mais do que deveriam – tudo isso são componentes diários na vida do brasileiro, que agora estão chamando a atenção do mundo por causa da Copa.
Seleção brasileira comemora conquista na Copa das Confederações / Crédito da foto: Getty
Apesar dos êxitos no futebol, Brasil escancarou seus problemas na organização da Copa
As insatisfações populares com tudo isso provocaram os protestos, que têm atraído o interesse da mídia internacional, que, por sua vez, dá mais cobertura para as causas do descontentamento, aumentando, assim, a vergonha e causando ainda mais insatisfação.
Parece um ciclo vicioso. Mas pode até ser um ciclo virtuoso. Já que todos sabemos que os problemas existem, o que temos a ganhar escondendo todos eles? É muito mais útil reconhecê-los e discutir soluções para eles. O desejo furioso de rejeitar todas as críticas estrangeiras pertence a uma ditadura. A democracia deve ser capaz de algo mais maduro.
Existe um sentimento esquizofrênico conforme a abertura da Copa se aproxima. De um lado, existe o movimento de protesto. Do outro, a venda de ingressos foi excepcional, com os brasileiros comprando muito mais do que qualquer outra nacionalidade.
Mas não há nenhuma necessidade de ver isso como uma contradição absurda. É completamente possível manter as duas posições ao mesmo tempo. Torcer pelo time comandado por Luiz Felipe Scolari em uma comemoração pela seleção brasileira e pelo potencial do país – e, ao mesmo tempo, desejar que os protestos e o processo democrático possam melhorar a realidade nacional.