sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Estamos todos surdos


Estamos todos surdos

Nós, brasileiros, temos uma enorme relutância em conviver com opiniões contrárias das nossas

  Por: 12 AGO 2014 - 16:17 BRT


Meu tio Élvio falava tão rápido e com um sotaque tão forte – mineirês da roça misturado a alguma coisa parecida com dialeto italiano da roça – que quase ninguém o entendia. Honesto, trabalhador, devotava-se por inteiro à família. Pouco porém participava da vida em comunidade, porque as sentenças que pronunciava, ininteligíveis, muitas vezes o colocavam em situações bastante complicadas, já que o interlocutor, não atinando com suas declarações, buscava adivinhá-las e depreendia o que melhor lhe aprouvesse. Só para se ter uma ideia do tamanho do problema, somente ao morrer descobrimos que seu nome não era Élvio, e sim Elmo. Mas, então, tarde demais. Se algum dia for a Rodeiro, verá inscrito em seu túmulo Élvio Gardone e entre parênteses Elmo Cardoni.
Lembrei-me de meu tio porque cada vez mais me assusta a dificuldade que encontramos no dia a dia de manter diálogos, devido à perigosa incapacidade que estamos desenvolvendo de ouvir o outro. Não sei qual a explicação, mas tenho percebido que as pessoas apenas querem falar, falar, falar, e não lhes interessa saber o que outro pensa a respeito do assunto em pauta. Em geral, são como fontes, que no breu da noite continuam a verter água, impossibilitadas de refletir a paisagem em torno, encantadas unicamente pelo barulho que fazem e que a escuridão amplifica.
Mais estranho ainda é que, em tempos de redes sociais, essa dificuldade de compreensão se estende até mesmo aos textos escritos. Ou seja, as pessoas tomam um trecho e, ou por o lerem de maneira desatenta ou por simplesmente não saberem interpretá-lo, rechaçam-no de maneira peremptória, encontrando nele coisas que não estão ali consignadas. E assim se destroem amizades, erguem-se desavenças, mancham-se reputações. Aliás, nós, brasileiros, temos uma enorme relutância em conviver com opiniões contrárias ou divergentes das nossas. Somos cordiais com todos aqueles que, de alguma maneira, comungam conosco pontos de vista similares, mas basta o menor sinal de contrariedade para demonstrarmos toda a nossa intolerância. Como não estamos acostumados ao exercício do diálogo, ao invés de buscar convencer o outro com argumentos, partimos imediatamente para a tentativa de aniquilá-lo, utilizando de subterfúgios como a chacota, o sarcasmo, a desinformação e até mesmo a canalhice pura e simples.
Este é, a meu ver, um posicionamento equivocado, que, ao fim e ao cabo, volta-se justamente contra nós mesmos. A melhor forma de aprendizado ocorre quando nos propomos a ouvir o outro e a refletir sobre o que está sendo exposto. Essa escuta proporciona uma melhor clareza de nossas próprias idéias – seja para reiterar nosso pensamento, seja para modificá-lo, caso percebamos que os argumentos do interlocutor iluminam caminhos até então desconhecidos por nós. Temo as pessoas que carregam verdades como se fossem armas – prefiro não ter certezas absolutas, pois estas nascem, sempre, da ignorância.
Se, no plano individual, estar aberto à opinião do outro, não para aceitá-la cegamente, mas para servir de contraponto às nossas crenças, é necessário, no plano coletivo mais se faz imprescindível o estabelecimento do diálogo. A democracia, que, como disse um estadista, é das formas de governo a menos pior entre todas as que já foram tentadas, exige de nós a humildade de aceitar que, nossa opinião, por mais que a prezemos e a consideremos a mais sensata, a mais correta, a mais inteligente, é apenas mais uma num universo de pensamentos, o mais das vezes bastante divergentes do nosso.
Se queremos construir uma verdadeira democracia, é obrigatório que defendamos o direito de todos se manifestarem publicamente, sejam quais forem seus pontos de vista. Mas, para que isso se efetive de verdade, temos antes que aprender a ouvir o outro, a ser tolerantes com ideias que divirjam das nossas. Coisa que, infelizmente, nesse momento, não temos sabido fazer. Assim, corremos o sério risco de, como meu tio Élvio (ou Elmo) Gardone (Cardoni), só sabermos sua verdadeira identidade (ou seja, sua verdadeira essência) quando não adiantar mais.

Obtido de:

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/08/12/opinion/1407871072_537360.html

Todos os direitos reservados ao jornal 'El País' e a Luiz Rufatto.
Este post não tem finalidade lucrativa e se presta a levar informações a comunidades carentes sem acesso à mídia e à internet. Se não for o seu caso, prefira acessar o link acima.


terça-feira, 5 de agosto de 2014

A visão deliberadamente torta da mídia paulista

Alckmin, Haddad e as escolhas da mídia

A expressiva diferença de tratamento da imprensa com as ações do Estado e da Prefeitura ajuda a entender a má avaliação de Haddad e a tranquilidade de Alckmin
por Lino Bocchini publicado 31/07/2014 02:39, última modificação 01/08/2014 10:14 
 
 
Governo do Estado
alckmin-volume-morto-cantareira-sabesp
Alckmin "inaugura" o volume morto do sistema Cantareira, em maio deste ano
No jargão jornalístico, “setorista” é o repórter que acompanha e escreve exclusivamente sobre algum tema. Quando Gilberto Kassab era prefeito de São Paulo, um conhecido jornal paulista não tinha nenhum setorista de Prefeitura. O que existia –e ainda existe—são repórteres especializados em transportes ou saúde, por exemplo. São profissionais que fazem matérias sobre sua área, seja qual for a instância de poder. Em janeiro de 2013, quando começou o governo Fernando Haddad, o mesmo jornal nomeou três setoristas de Prefeitura. Ou seja: a partir da mudança de comando na cidade, três profissionais deste veículo passaram a se dedicar exclusivamente a cobrir a Prefeitura de São Paulo.
No governo estadual, a realidade é outra. Não há na mídia convencional nenhum jornalista que se dedique exclusivamente a cobrir a administração Geraldo Alckmin (PSDB).
A diferença de tratamento é uma escolha das empresas de comunicação. A direção de cada rádio, jornal, revista ou TV que tem sede em São Paulo ou atua na cidade decidiu noticiar de forma crítica cada movimento da gestão Fernando Haddad (PT) e, em uma atitude oposta, deixar o governador Geraldo Alckmin “livre” ao tratá-lo com menor atenção e rigor editorial.
Essa linha editorial-ideológica dos “grandes” da comunicação explica, em parte, os resultados de pesquisas divulgadas nos últimos dias e que mostram uma má avaliação da gestão de Haddad e a tendência de reeleição em primeiro turno de Alckmin.
E estamos falando de uma gestão que está implantando corredores de ônibus e ciclovias pela cidade toda, implantou um programa inovador de apoio a usuários de crack, está combatendo o uso indiscriminado de Ritalina, aumentou a capacidade de reciclagem de lixo da cidade, garantiu a reabertura do cinema Belas Artes e aprovou um plano diretor elogiado até pelo MTST, entre outras medidas desses últimos 18 meses.
A gestão do petista Fernando Haddad tem seus problemas, claro. Chama a atenção, entretanto, o fato de ser a pior avaliada após um ano e meio de governo desde a de Celso Pitta (1997-2000). Segundo pesquisa Datafolha divulgada no último dia 18 de julho, 47% da população considera a atual gestão municipal “ruim” ou “péssima”, e apenas 15% a aprovam.
Como comparação, a gestão José Serra foi a mais bem aprovada desde que o instituto começou a fazer esse tipo de pesquisa, na gestão Jânio Quadros (1986-1988). O tucano ficou à frente do poder municipal de São Paulo por apenas 13 meses e abandonou o cargo para concorrer ao governo estadual, deixando a prefeitura para Gilberto Kassab. Mesmo seus eleitores têm dificuldade de lembrar qualquer realização de seu breve governo e, mesmo assim, Serra teve sua administração classificada como “ótima” ou “boa” por 56% dos entrevistados.
Agora vejamos o governo estadual. Entre idas e vindas, Alckmin está em seu 9º ano no comando do Palácio dos Bandeirantes. O PSDB está por lá desde 1995. Com duas décadas de partido único, São Paulo é o estado brasileiro com menor alternância de poder dentre os 27 entes da federação.
A gestão de Geraldo Alckmin é aprovada por 46% da população, e suas intenções de voto chegam a 54% no Datafolha. Os números são semelhantes em outros institutos e lhe garantiriam uma folgada vitória no primeiro turno caso a eleição fosse hoje.
Crise inédita de falta de água, violência policial, sensação de insegurança da qual boa parte da população reclama, valor dos pedágios, metrô em marcha lenta, denúncias de corrupção (Alston, Sabesp etc), maior crise financeira da história da USP, presídios e Fundação Casa super lotados, Santa Casa quase fechando as portas... nada “cola” no governador, parece ser tudo culpa de um genérico “poder público”.
Esses assuntos estão no noticiário, mas com muito menos frequência e de outra forma do que no caso de eventuais problemas da gestão Haddad, e raramente associados ao nome do governador. Pelo noticiário, a impressão que se têm é que a falta de água é um problema divino, e há quem acredite que a crise da Santa Casa ou a lentidão do metrô “é culpa da Dilma”. Perceba a diferença entre os títulos “Falta de planejamento do Estado causa falta de água” e “Falta de planejamento de Alckmin causa falta de água”. Como já disse Paulo Francis, “jornalismo é uma questão de ênfase”.
Um amigo não petista e eleitor de Marina costuma dizer que “os problemas do governo do Estado só vão ser noticiados se o Padilha ganhar”. A ironia traz um fundo de verdade. Alguém acredita que, em caso de vitória do petista Alexandre Padilha, o Palácio dos Bandeirantes seguirá sem um único jornalista especialmente destacado para vigiá-lo?
Não há problema algum nessa postura da mídia. Cada veículo tem suas preferências políticas e posições bem definidas. É assim no mundo todo. O que varia é o grau de transparência e honestidade com o leitor. O problema é que a imprensa brasileira, e particularmente a paulista, não reflete a diversidade de ideias encontrada na sociedade. Ela segue uma lógica editorial que contempla apenas uma parcela da população.
Os veículos em geral escondem suas intenções por detrás de um verniz de uma suposta imparcialidade que ainda ludibria boa parte dos leitores. Se todos jogassem limpo e revelassem suas posições, como acontece, por exemplo, na mídia dos Estados Unidos e da França, pelo menos o jogo ficaria mais honesto e o leitor não compraria gato por lebre.
 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Em dois meses, a França revoluciona seu mapa regional


Este blog tem informado que os grandes problemas que entravam o desenvolvimento do País não estão relacionados a partidos políticos ou a políticos. Significa dizer que as eleições pouco modificam o cenário econômico e social brasileiro, a não ser pela permanência da estabilização econômica - que não é um privilégio do Brasil na América Latina, como se vê na Colômbia, Peru, México e Bolívia - e dos programas sociais de inclusão de crianças à educação, como o Bolsa-Família. 

O tema deste artigo é tratar de um grave problema do País - os gastos do governo. Apesar dos recordes na arrecadação de impostos, os gastos na administração pública federal, estadual e municipal travam os investimentos em infraestrutura, saúde e educação. A solução está na redução de gastos do governo, conhecida como reforma fiscal - um objetivo cada vez mais distante do nosso País. Como comparação, veja essa notícia sobre a reestruturação da administração política da França - em pleno governo socialista, taxado normalmente de 'gastador' - e os resultados previstos por essas medidas. E veja o que o governo brasileiro deveria fazer, independentemente de sua "orientação" socialistas ou não. É caso somente de vergonha na cara.

As lições de um governo socialista

Em dois meses, a França revoluciona seu mapa regional

A histórica reforma com novas fronteiras internas resultará em uma economia de pelo menos 36,5 bilhões de reais

A França mudou radicalmente seu mapa territorial em um tempo recorde de dois meses. A Assembleia Nacional acaba de aprovar as profundas mudanças das fronteiras internas francesas sem, até o momento, reações acaloradas, nem dos partidos políticos, nem das zonas afetadas. Um dos objetivos da histórica mudança consiste em economizar entre 12 bilhões e 25 bilhões de euros (de 36,5 bilhões de reais a 76 bilhões de reais) nos próximos três anos. As 22 regiões atuais serão aglutinadas e restarão apenas 13.
O principal argumento do presidente François Hollande e de seu Governo para tal revolução consiste em alcançar uma gestão pública mais ágil e menos custosa (hoje consome 55% do PIB) dividida atualmente entre a Administração central, as 36.700 comunas ou municípios (é o país com mais autoridades locais do mundo), as 13.400 associações de municípios, os 96 departamentos ou províncias com seus respectivos conselhos gerais ou assembleias (4.058 cargos eleitos com salário) e as 22 regiões com seus conselhos regionais (1.757 cargos). As funções, em alguns casos, estão duplicadas.

"Queremos territórios mais fortes e melhor organizados que dividam seus gastos de funcionamento", afirmou o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, à Assembleia antes da aprovação pelos legisladores do novo mapa no último dia 23 de julho. O projeto de lei foi apoiado quase que exclusivamente pelo Partido Socialista, mas os outros grupos que votaram contra ou se abstiveram explicaram que, embora também desejem uma profunda reforma territorial, o Governo deveria ter buscado um acordo.
A pressa de Hollande tornou impossível um pacto. Até o começo do ano, o presidente não havia sequer mencionado a possibilidade de tal reforma. No início de junho, o próprio Hollande divulgou o primeiro mapa no qual reduzia para 14 o número de regiões, para então finalmente ficar com 13 no projeto parlamentar.

No decorrer de junho e julho, algumas regiões mudaram até três vezes de aliado ou companheiro de viagem. Mas os protestos dos líderes regionais afetados basearam-se, praticamente em todos os casos, nas vantagens ou desvantagens de unir-se a uma região mais rica ou mais pobre que a sua. As referências à história ou à identidade foram muito escassas.
"Nosso objetivo não é criar regiões com identidade, como na Espanha ou na Itália, mas regiões econômicas que sejam ao mesmo tempo fortes e respeitosas com as identidades locais", alertou Cazeneuve. O novo mapa mantém apenas quatro regiões na mesma situação atual. Uma delas, a Bretanha, com importantes características ligadas à sua identidade, rejeitou de todas as maneiras se unir a País do Loire. Por motivos semelhantes, a Alsácia prefere caminhar sozinha, e não unida à região de Lorena. O novo mapa, que será discutido novamente nos próximos meses, entrará em vigor em janeiro de 2016, mas as regiões poderão negociar novas fusões até 2019.

Em uma apresentação na Assembleia, o Governo argumentou que, dentro da União Europeia, e em plena globalização, as regiões devem ter uma população extensa para serem eficazes. Na Alemanha, a média de cada região é de 5,1 milhões de habitantes. Na Itália, 4,4 milhões. Na França agora está em 2,9 milhões. Na Espanha a média é de 2,4 milhões (contando Ceuta e Melilha), ainda que na França nenhuma região atual tenha menos de um milhão de habitantes. O caso francês tem precedentes recentes na Europa. A Polônia (16 regiões), a Grécia (agora 13 em vez de 54 províncias), a Dinamarca (de 14 para 5 regiões) e a Suécia (que ficará com menos da metade de suas 21 regiões) também fizeram mudanças parecidas.

As economias com a nova organização vão surgir por várias vias. No lugar de 22 conselhos regionais ou assembleias, haverá 13. Cada uma dessas novas assembleias apenas poderá ter um máximo de 150 conselheiros ou deputados regionais. Algumas hoje superam 200, com salários mensais de 2.200 euros (6.700 reais) e de 5.400 euros (16.400 reais) no caso do presidente. O número de conselheiros regionais, atualmente em 1.757, cairá para algo em torno de 1.520.
Outra via fundamental para reduzir despesas será à custa dos departamentos ou províncias, cujas funções serão assumidas em boa parte pelas regiões. Por isso, o Governo prevê que em 2020 desapareçam os conselhos gerais ou assembleias nas províncias, com seus mais de 4.000 cargos eleitos, que também cobram entre 2.200 e 5.400 euros (6.700 a 16.400 reais) por mês. Estes cargos são compatíveis, por exemplo, com o de senador, algo que acontece em 93 casos de um total de 348 membros do Senado, que por isso tem tentado boicotar a todo custo, mas sem sucesso, a reforma.
Outro processo de corte de custos consiste em frear o permanente crescimento do número de funcionários públicos nos municípios, departamentos e regiões a um ritmo de 1,6% ao ano. Hoje somam 1,89 milhões. Se nos próximos cinco anos essa cifra não aumentar, a economia será de 5 bilhões de euros (15 bilhões de reais).
Já as 13.400 associações que prestam serviços para os municípios (lixo, água, transporte local) devem ser reduzidas para 5.800, de forma que cubram as necessidades de centros com população mínima de 20.000 habitantes em vez dos 5.000 atuais. Essas associações também assumirão funções dos departamentos.
Embora em menor número, as regiões receberão com esta reforma um maior protagonismo na Administração francesa, centralizada, mas com importante peso histórico dos municípios e dos departamentos, os grandes perdedores até agora. Charles De Gaulle também tentou dar maior importância às regiões, mas renunciou como chefe de Estado depois de perder um referendo em 1969 com essa finalidade. Apesar de tudo, em 1982 as regiões foram incluídas na Constituição francesa. Agora é chegada a hora da revolução.

Obtido de: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/07/31/internacional/1406797786_782418.html